terça-feira, 9 de novembro de 2010

Comentários sobre Filmes: Tropa de Elite 2

Entre as polêmicas e discussões do primeiro filme, desde seu sucesso, obviamente decorrente da pirataria excessiva, até o fato de ter sido substituído por "O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias" na disputa pelo Oscar, o ponto chave do primeiro filme era sua violência, as palavras duras de Nascimento e uma crítica a máquina pública e a situação social do Brasil que os brasileiros não estavam prontos para enfrentar. Se aquele filme fez tanto estardalhaço, talvez o segundo atinja um nervo ainda mais profundo, já que no segundo filme ele atinge o âmago do que faz o Brasil rodar, a corrupção no alto escalão. Em Tropa de Elite 2, Nascimento, dez anos mais velho, cresce na carreira: passa a ser comandante geral do BOPE, e depois Sub Secretário de Inteligência. Em suas novas funções, Nascimento faz o BOPE crescer e coloca o tráfico de drogas de joelhos, mas não percebe que ao fazê-lo, está ajudando aos seus verdadeiros inimigos: policiais e políticos corruptos, com interesses eleitoreiros. Agora, os inimigos de Nascimento, são bem mais perigosos. A premissa parece bem simples no papel, mas José Padilha não é o tipo de pessoa que simplifica as coisas. Dessa vez bem mais preparado, não apenas com a pirataria, mas pelo fato de ter construído um filme especificamente para a telona, abusando de panorâmicas e uma edição de áudio bem mais requintada, também tem orçamento milionário e carta branca na seleção de um elenco fodáximo, digno de superproduções brazucas. O Urso de Ouro em Berlim não veio apenas pelo teor muito mais crítico do filme, mas também pelo trabalho técnico primoroso, bem aprendido e aprimorado desde o primeiro.

Wagner Moura reprisa o papel de sua carreira. Dentro em breve ele pode correr o risco de não ser conhecido como Wagner Moura, mas como o "eterno Capitão Nascimento". Um fenômeno estilo Jack Bauer/Kiefer Sutherland, Don Corleone/Marlon Brando, Superman/Christopher Reeve, Robert Pattinson/Edward, Matthew Broderick/Ferris Bueller, dentre outros... No personagem ele convence, seja deprimido, seja cansado, chorando, ou dando seu bom e velho esporro. Nascimento deixa de ser um adulto nervoso para ser um coroa “heróico” cansado. Ele envelhece como no papel, mesmo não tendo envelhecido os mesmos 10 anos. Os outros gratos destaques são o militante e deputado Fraga, vivido pelo bom ator Irandhir Santos e o cômico, mas extremamente irritante Fortunato, uma cópia mais do que legítima de apresentadores na linha José Luis Datena, Wagner Montes, etc... na pele de André Mattos. Ambos geniais. Não que o resto do elenco não seja totalmente fantástico, da gostosa e breve aparição de Tainá Muller até a volta, não tão gloriosa, de André Ramiro interpretando o agora furioso e esquentado Mathias. Todos fantasticamente bem.

Desde o começo, pode-se ver que o filme pega o clima exatamente de onde parou no primeiro filme. A crítica de Nascimento de uma posição direitista fascista, que incomodou muita gente na época, continua sendo a crítica ao sentimento social de que “alguém tem que pagar”. Mas, assim como a população não viu isso na época e apenas desfrutou da carnificina, talvez não note a crítica contumaz de Padilha nesse segundo capítulo. Nascimento vai crescendo e envelhecendo e vendo que seu discurso direitista talvez não seja realmente a solução de todos os problemas e que sua posição prática radical cause mais problemas do que resolva. A questão em crítica agora não é “violência gera violência” como no primeiro filme, mas sim a pergunta maior de: Como funciona tanta violência? Além disso, tudo existe o lado pessoal da vida de Nascimento, que é cada vez mais explorado, não ficando nos flashs superficiais do primeiro filme. A medida que o filme vai seguindo seu rastro de destruição e vendo que, matar todos os bandidos não é matar todos os males, Nascimento vai ao berço de todo seu problema – ou pelo menos um deles – a ganância e a corrupção. Nada daquilo é feito acidentalmente e em diversos pontos do filme, a consciência política se mostra cada vez maior. Não existe “por acaso” no sistema. Talvez esse clima paranóico seja o grande climax do filme e, apesar de parecer exagerado, não é totalmente infundado. Tropa de Elite 2 consegue tratar de política sem a demagogia de “todo político é bandido” ou “a culpa é do sistema” para algo mais profundo como “esse sistema tem uma ‘cabeça’?” ou “onde foi que todos nós erramos?”, a partir do momento que Nascimento representa o cidadão revoltado de bem padrão. Ele não é diferente do telespectador normal de final da tarde dos programas policiais. Ele não é melhor ou pior do que o cidadão comum sem orientação política. Ele simplesmente é uma peça da engrenagem que pára, de modo a refletir porque está alí, e nada revela melhor isso do que sua última fala e sua última narrativa. O filme deixa bem claro que não é uma guerra perdida, mas sim uma constante luta daqueles que querem fazer o certo e os que querem fazer o “fácil”.

Mesmo que você não tenha gostado do primeiro filme, por achar um discurso fascista e sem orientação política – posição que não concordo, pois acredito mais ser um filme denúncia do funcionamento desumano da máquina pública do que uma apologia gratuita da violência – você pode ter certeza que não apenas “o inimigo é outro” nesse filme, como a conversa também é outra. Se você gostou do primeiro filme, todos os elementos que o fizeram “divertido” por algum motivo bizarro, voltam nesse filme. Os “caveiras” ainda são os mocinhos, mesmo sendo os mocinhos que alimentam os “bandidos”, em uma dialética muito complicada, mas o heroísmo e a luta pelos ideais do “cidadão de bem” continuam lá, mesmo que numa área muito mais “cinza” do que a preta e branca do primeiro filme. A melhor opção para assistir é refletir ao sair do cinema, sem esquecer da diversão.

Então assistam Tropa de Elite 2 e divirtam-se.

Bom Filme!!!

Se quiserem, dêem uma conferida num dos trailers oficiais logo abaixo:



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